outubro não atende minhas particularidades, é tão humilhante sentir-se vivo às vezes. narro em minha mente nossos casos inacabados - m e t i c u l o s a m e n t e - guardo todos os sentidos. minhas dúvidas perduram nesses dias sem afeto onde somente a garoa é capaz de alterar minha sensação térmica, espero 5 minutos, nada de novo, minha pele arrepia, quaisquer olhos me emocionam. 5.10.08 partimos de pressupostos errados e o que prevalece entre nós é a mais pura falta de. vezenquando nos arriscamos em gesticulações amigáveis, mas as mãos nunca se tocaram por mais de um segundo - o que posso então dizer-te sobre os corpos? a estes guardo nenhum afeto. ontem o que eu queria te dizer era apenas uma vaga idéia, acho que me perdi no meio do caminho e entre uma batida e outra apenas acenei com as sobrancelhas e um sorriso de canto de boca. (...) Mas duas pessoas não se equilibram muito tempo lado a a lado, cada qual com seu silêncio; um dos silêncios acaba sugando o outro, e foi quando me voltei para ela, que de mim não se apercebia. Segui observando seu silêncio, decerto mais profundo que o meu, e de algum modo mais silencioso. E assim permanecemos outra meia hora, ela dentro de si e eu imerso no silêncio dela, tentando ler seus pensamentos depressa, antes que virassem palavras húngaras. (...) Chico Buarque, in Budapeste. 29.9.08
eu não sou uma pessoa boa, mas com certeza existem piores que eu por aí. afinal, nunca matei, nem roubei, muito menos desejei a mulher do próximo. posso dizer que tenho equilibrado bem o decálogo, mas não sei o que seria de mim sem esses anos de formação particular em colégio católico. talvez eu não seria essa mulher cheia de particularidades e cansaços. sobrevivo em quaisquer situações, só não aprendi mesmo a tirar o sutiã com uma das mãos.
22.9.08 está sendo difícil dormir esses dias parece que a insônia faz questão de me segurar por mais tempo como se cada segundo estivesse encarregado de anunciar nada mais e nada menos que essa ausência que já não sei mais se é minha ou sua só sei dessa vontade de estender o braço para agarrar algo e perceber no meio do caminho percorrido como um gesto tornou-se absolutamente em vão porque a real é que eu tento cara como eu tento e bato a cara no muro na rua eu saio emputecida e totalmente desiludida com a vida e com deus e comigo e com você e até parece que está escrito na minha testa o tamanho do meu pesar - eu e as escrotices do coração - anos e anos de terapia pra entender que "tem mais presença em mim o que me falta" mas se não fosse o colega letrado nunca me lembraria dessa certeza dilaceradamente viva que cresce feito erva-daninha pelo corpo dentro do peito faço o possível para evitá-la só que entenda meu bem falar sobre desamor é uma luta diária que frequentemente perco. 14.9.08
o depois foi bem simples: ele me envolveu em seus braços - tão firmes, tão fortes - e ficamos atados e paralisados sem nenhuma dormência, apenas dividindo o mesmo teto branco. uma sensação me saltou ao peito. foi quando, de repente, eu achei tudo aquilo muito engraçado. quer dizer, cada momento é único, cara.
7.9.08 sinto um peso enorme sobre as costas, minhas verdades intangíveis. coisas simples assim, eu disse sem hesitar. ele me sacou um olhar cortante e eu permaneci ereta com minhas convicções - a desilusão é um vírus, cara. ele me diz que não, mas acha necessário todo e qualquer ressentimento entre nós. 4.9.08
22.8.08
- " tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, não me venha com essas história de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, cara! "
15.8.08 agosto, guardo em mim aquela sensação como se fosse hoje - o ano que minha memória não deixou pra trás - eu e minhas ridículas sentimentalidades, exatamente tudo aquilo que ele temia. joguei na cara, mas foi em mim que doeu. continua doendo. "passa, passará". desde então não romanceio mais nada, foi o que ele me disse: eu&você e a mágoa que não deixa Deus dormir. o início foi tão down, doses cavalares, um coquetel de gin com as minhas lágrimas e por um segundo pensei que se eu disesse a coisa certa ele seria menos hostil. e foi, mas apenas por 8 meses. o cheiro do corpo dele persistiu no meu por dias, não quis tomar banho. inútil, está bem, a vida deve voltar pra sua regularidade mesmo. então como ritual habitual, chorei todo aquele silêncio que me consumia - e é indivisível, eu sei, mas talvez a razão seja apenas essa: ele ainda não aprendeu a ser uma pessoa sozinha. estou aprendendo por ele. 8.8.08 - o meu amor é sexualmente transmissível - não sei porque diabos repetia essa frase, era tão literário querer se afundar em tanto sentimento. estar apaixonada, mesmo não sabendo bem ao certo como é estar envolvida, essa era a sensação do mês e não foi preciso ler o oráculo. estava nas mamas, acredito eu que por todo o resto do corpo. sensualmente derramada, naturalmente lasciva. no entanto, profundamente solitária e cada vez mais convicta que o poço é fundo, assim como o caminho à frente é longo. me avisaram de antemão, meu corpo já sentia os primeiros sinais de cansaço. entre uma ovulação e outra não foi difícil perceber que tudo isso é um terrível esforço para mim. 2.8.08 - a verdade é que nós estamos cansados demais, meu amor. cansados dessa mesmice de sempre, desse mal estar todo e desse cheiro de cigarro impregnado em nossas roupas e cabelos. é, estamos fodidos e mal pagos, frustrados até as pontas dos pés, cheios de romances malacamados e verdades indigestas. eu não tenho medo de nada, mas não posso. não posso compreender uma porção de coisas tipo essas: euvocêetodosnós. meu corpo oscila de um lado para o outro, tocando outros corpos, na simples tentativa de permanecer no centro. ninguém se esquiva, inclusive eu. ninguém me sustenta, inclusive eu. então há de se chegar mais perto, meu amor. pois nós já nos cansamos dessa quilometragem inútil. volta e meia é o escambau, são voltas longínquas e intermináveis dentro do peito. lá vamos nós a correr de braços abertos em sentimentos de selvagem júbilo. mas a verdade é que eu mereço mais que o seu silêncio e esse ar de quem está sempre muito ocupado. já chega, dizemos pra nós mesmos, e nos agarramos na certeza que só um parcial idiota ou completo inexperiente estaria perfeitamente de acordo em fazer qualquer coisa como essa: umaoutratentativa. 8.7.08 ele também, aposto. estava tão exausto quanto eu. dava pra ver na cara, na minha, na dele. nós sabíamos e sabíamos demais - ser homem e mulher na hora certa. cada um de nós tinha seu sexo, lógico, tudo em nós era sexo - até um dos lados não aguentar. acho que eu cometi o primeiro erro, mas a culpa era dele - ser absurdamente artista. ele também vacilou, se apaixonou por uma mulher que não existia. estava escancarado o nosso desespero. dois solitários convictos na cama, mais dois fodidos no mundo. é lógico que tudo não passou de mera coincidência, é o que repito todos os dias. 7.7.08
"Mas não se pode agir assim, a amiga avisou no telefone. Uma pessoa não é um doce que você enjoa, empurra o prato, não quero mais. Tentaria, então, com toda a delicadeza possível, sem decidir propriamente decidiu no meio da tarde — uma tarde morna demais, preguiçosa demais para conter esse verbo veemente: decidir. Como ia dizendo, no meio da tarde lenta demais, escolheu que — se viesse alguma sofreguidão na garganta, e veio — diria qualquer coisa como olha, tenho medo do normal, baby. Só que, como de hábito, na cabeça (como que separada do mundo, movida por interiores taquicardias, adrenalinas, metabolismos) se passava uma coisa, e naquele ponto em que isso cruzava com o de fora, esse lugar onde habitamos outros, começava a região do incompreensível: Lá, onde qualquer delicadeza premeditada poderia soar estúpida como um seco: não. E soou, em plena mesa posta.Tanto pasmo, depois. Sozinho no apartamento, domingo à noite. Todas as coisas quietas e limpas, o perfume adocicado das madressilvas roubadas e o bolo de chocolate intocado no refrigerador — até a televisão falar da explosão nuclear subterrânea. Então a suspeita bruta: não suportamos aquilo ou aqueles que poderiam nos tornar mais felizes e menos sós. Afirmou, depois acendeu o cigarro, reformulou, repetiu, acrescentou esta interrogação: não suportamos mesmo aquilo ou aqueles que poderiam nos tornar mais felizes e menos sós? Não, não suportamos essa doçura. Puro cérebro sem dor perdido nos labirintos daquilo que tinha acabado de acontecer. Dor branca, querendo primeiro compreender, antes de doer abolerada, a dor. Doeria mais tarde, quem sabe, de maneira insensata e ilusória como doem as perdas para sempre perdidas, e portanto irremediáveis, transformadas em memórias iguais pequenos paraísos-perdidos. Que talvez, pensava agora, nem tivessem sido tão paradisíacos assim. Porque havia o sufocamento daquela espécie de patético simulacro de fantasia matrimonial provisória, a dificuldade de manter um clima feito linha esticada, segura para não arrebentar de súbito, precipitando o equilibrista no vazio mortal. Cheio de carinho, remexeu no doce, sem empurrar o prato. Preferia a fome: só isso. Pelo longo vício da própria fome — e seria um erro, porque saciar a fome poderia trazer, digamos, mais conforto? — ou de pura preguiça de ter que reformular-se inteiro para enfrentar o que chamam de amor, e de repente não tinha gosto? De onde vem essa iluminação que chamam de amor, e logo depois se contorce, se enleia, se turva toda e ofusca e apaga e acende feito um fio de contato defeituoso, sem nunca voltar àquela primeira iluminação? Espera, vamos conversar, sugeriu sem muito empenho. Tarde demais, porta fechada. Sozinho enfim, podia remexer em discos e livros para decidir sem nenhuma preocupação de harmonia-com-o-gosto-alheio que sempre preferira um Morrison a Manuel Bandeira. Sid Vicious a Puccini. A mosca a Uma janela para o amor, sempre uma vodca a um copo de leite: metal drástico. Era desses caras de barba por fazer que sempre escolherão o risco, o perigo, a insensatez, a insegurança, o precário, a maldição, a noite — a Fome maiúscula. Não a mesa posta e farta, com pratos e panelas a serem lavados na pia cheia de graxa — mas um hambúrguer qualquer para você que escrevo. Mas os escritores são muito cruéis, você me ama pelo que me mata com coca-cola no boteco da esquina, e a vida acontecendo em volta, escrota e nua. Não muito confuso, assim confrontado com sua explícita incapacidade de lidar com. A palavra não vinha. Podia fazer mil coisas a seguir. Mas dentro de qualquer ação, dentes arreganhados, restaria aquela sua profunda incapacidade de lidar com. Um instante antes de bater outra, colocar uma velha Billie Holiday e sentar na máquina para escrever, ainda pensou: gosto tanto de você, baby. Só que os escritores são seres muito cruéis, estão sempre matando a vida à procura de histórias. Você me ama pelo que me mata. E se apunhalo é porque é para você, para você que escrevo — e não entende nada."
27.6.08 sei lá o que ele queria dizer com aquilo tudo, algumas coisas nem sempre ornam bem. a gente só tinha o sexo e mesmo com tanto tesão ideológico e corporal os bicos dos meus seios nem sempre ficavam duros. podia ter dado certo entre a gente ou talvez eu nem deveria ter dado. meudeusdocéu, sinta só esse vazio - nós dois feito um nó na cama. ele me caberia perfeitamente bem se não fosse preciso me esconder atrás de falsos gemidos. então, de repente, não suportei mais a situação. entre um gesto e outro me plantei ereta - nua e ardente - mas o que havia por dentro já era oco e frio. que nem lá fora, 6º. as coisas até faziam sentido, mas sinceramente, não havia nenhuma graça. a gente só estava tirando o atraso, nenhum laço, pouca segurança, olha que lindo o meu umbigo, cumplicidade zero. 23.6.08 calcinha branca: o meu figurino favorito. andando pela casa passo os olhos pelos cantos à procura do avesso, feito cão vigia. eu sinto o cheiro do pudor e ele traz a mim aquela vontade de carícias - deslizar os dedos pela superfície do corpo nunca me pareceu tão tentador. a lamentar percebo que o ato nunca foi, também, tão insuficiente. vou ao espelho - que falta um corpo faz. essas tentativas frustradas de saciar a fome de uma forma tão solitária só sabem revirar as entranhas, não passam de neuroses juvenis, causam úlcera. eu quero abusar. porque a vida é assim, pura irregularidade. descontrole. uns abusam, outros são abusados e outros ficam ao léu. chega uma hora que de tanto você espremer a vida, acaba sendo espremido. já não tem muito por onde, aprendi a não ser laranja. talvez limão. hoje tento agarrar o que posso, tento matar o desejo com restos de outras farras. quero orgia, luzes, música alta e novos ares. congregando todo meu apetite em volta da casca delgada da melancolia, tento ser júbilo. de uma coisa estou certa: o tosco se expressa com pouca fartura - li num livro - e a barriga empurra. repare nos filmes, cheios de momentos e frases depravadas pelo excesso de romantismo. toda essa felicidade me dói e ofende. me quebra as pernas. por quê tão pouco, meu deus? talvez seja melhor não pensar nos motivos, então resumo o meu romance e guardo-o no bolso, pra não perder. eu dentro dele, ele atrás dos meus silêncios. é a profundidade da buceta que lava uma alma. depois de uma foda o mundo, por instantes, muda - e nós precisamos dessa mínima certeza. não tem que ter muito sentido, apenas curta cada golpe do martelo que não te perguntarão nada. então que fique bem claro: a palavra e o ato . existe o tosco, existe a pôrra, existe o ventre e existe o eu. talvez seja só isso, uma tela lisa e plana. 21.6.08 quando ele me fala sobre tato eu imagino quão trágica, quão usual eu devo ser - ou eu aprendi a ser - pois quando ele me envolve com os braços, minha pele arrepia como se a sensação fosse de última vez. 16.6.08 tudo estava muito claro, era muito silêncio o que havia entre nós. ele me olhava sem buscar uma resposta, eu pisava firme e em linha reta. o que nos mantia no mesmo ambiente era o barulho dos meus sapatos e esse mesmo barulho mostrava que o chão abaixo de nós era oco - nós estávamos prestes a desabar. continuamos assim por mais alguns minutos até ele violar a minha santa clausura. como quem não quer nada sua voz anunciou : "você tem problema com afeto". por um segundo pensei em pedir desculpas, era isso uma pergunta ? pelo seu tom não consegui compreender a pontuação correta e mesmo assim me senti tão ofendida ao ponto de esconder esse sentimento com alguma frase ácida, mas a voz não saiu, logo percebi que era a mais pura constatação - eu tenho problema com afeto e nem eu, nem ele, sabíamos como resolver isso. 13.6.08
ele fala em pausas e eu não me dou bem com pontuações - exceto quando me forço na idéia de um "to be continued..." - contando os pontos eu espero que ele diga a coisa certa, mas entre um gesto e outro ele passa as mãos nos meus cabelos e diz como ama os meus cachos. eu reajo com um sorriso singelo de canto de boca e penso na minha estupidez de esperar por um "te amo" até depois da vírgula.
24.5.08 lembro-me muito bem quando o celular dele tocou - justamente porque naquele momento eu percebi que ele nunca me pertenceu. acho que de imediato ele constatou o meu pesar, então cuidadosamente tentou abafar com uma das mãos aquele som que indicava o sinal de partida, e com a outra tapou um dos meus ouvidos - enquanto sua fala me narrava casos improváveis. a verdade era que ele me tinha ali despida, e eu, sem saber o que fazer, aos poucos fui me sentindo uma amadora irremediável.
"ou o poço era profundo demais, ou ela caía muito devagar, pois tinha tempo de sobra para olhar em torno de si durante a queda e perguntar-se o que aconteceria em seguida. tentou primeiro olhar para baixo, a fim de ver onde estava chegando, mas a escuridão era demais para se ver qualquer coisa. olhou então para as paredes do poço e observou que estavam cheias de armários e estantes: aqui e ali viu também mapas e quadros pendurados. enquanto passava tirou um pote de uma das prateleiras: estava rotulado GELÉIA DE LARANJA mas, para sua grande decepção, estava vazio."
17.5.08
cierro los ojos de nuevo, la náusea me invade, me siento mal ¿a dónde se ha ido aquella sensación de libertad?
28.4.08 - " eu te quero por inteira ". acho que foi essa a última frase que escutei antes de desabar. depois de um porre fenomenal eu já não sabia distinguir o que era real ou fantasia. quando ele me deixou, parei pra pensar naquilo que eu chamava de nossa vida - o que certamente só existia na minha mente tão congestionada e que, vezenquando, eu conseguia materializar em uma única lágrima. depois de tanta coisa machucada e desgastada eu consegui congregar toda minha insatisfação em um único ato - tão sexual, tão triste. aí me veio uma idéia: primeiro sofre-se, depois escreve-se por vingança. 22.4.08
cast.zilla assim ele me chamou, e eu fiquei pensando nos meus 1,74 m que mal me sustentam a alma. 17.4.08
eu sou a muralha: foi o que pensei logo ao acordar e me olhar no espelho, aquela maquiagem da noite anterior impossibilitava qualquer prolongação. eu era a muralha e nada podia fazer contra isso - em sua pose fetal ele me esperava na cama. de repente me veio nuances mal elaborados, frases mal ditas, todos meus amores fadados. eu cavei um buraco dentro de mim e quanto mais eu pensava nisso, mais me edificava. então me deixei no espelho do banheiro, voltei para o quarto e o olhei como uma mãe olha o seu filho dormir - ele não me pertencia e digerir essa fala me parecia absurdamente errado. ele se virou e me olhou na alma: você não veio ao mundo pra ser pedra, menina. então eu tremi.
21.3.08
eu estou cansada, frustrada e exausta até a alma. meu corpo não agüenta, meus olhos ardem e o estômago nem se quer tem força pra gritar. vivo aqueles dias em que não se há mais nada para queimar.
12.3.08 comecei a pensar em todos os paus da minha vida, todos os caras, todos os perdidos. não deram certo, nunca foram certos. assim como a natureza humana. eu sempre tive a mania de me relacionar com gente como a gente - é assim que falam, não é? não sei, não sei. o inferno é o meu máximo. já perdi a conta de quantas vezes atirei no meu próprio pé. esses caras - sempre achando que o roque é o salva-vidas.
28.2.08
26.2.08
19.2.08 a verdade é que eu já sabia de tudo, o tapa na cara, eu já sentia minha pele arder alguns dias antes. mas como de costume tapei os olhos e joguei o corpo. esperei pelas palavras, tão confusas, que vezenquando saltam das bocas. mas o que veio foi o inaudível, não pude captar. então comecei a roer as unhas, a balançar as pernas, torcer guardanapos. mesmo assim nenhuma mensagem. tudo isso já era bem óbvio, o suficiente. mas eu, com a minha mania de significados e prolongações, queria espremer tudo, chupar o bagaço, ver o oco. pisciana confusa, me disseram em voz alta. pisciana neurótica, eu disse em voz baixa a mim mesma. apaguei um a um - como o de costume - aí corri, sem deixar nenhum sinal. tive uma emoção como todas as outras e só. 13.2.08
5.2.08 há algum tempo prometi a mim mesma não me envolver em qualquer situação que exigisse considerável pulsação: tato, fala, cheiro, lambidas, sexo. vacilei, tão previsível - mesmo, talvez, você nunca ter percebido isso. sem dormir e sem ouvir um som seu, é assim que tenho matado minhas tardes cobertas de pó. você não sabe, nem se quer imagina que o café continua na mesa esfriando em meu desespero. previsível também, eu sei. mas deixe-me explicar, hoje em meu quarto lembrei estupidamente de você. ou quase isso. pra ser exata, acho que só lembrei daquela vibração de silêncio, muito forte, que sempre existiu - e ainda existe - entre nós. aquela sincronicidade muda que só eu cultivo em minha memória tão congestionada, e outras vezes, tão vazia. atrás de cada palavra sua, tento decifrar os códigos, os sentidos, uma senha qualquer que me permita a aproximação. mas não sei por onde. vezenquando você me parece tão áspero que me forço na recusa de qualquer gesto que se familiarize ao toque. mas por estas mesmas situações, muitas vezes deliro pelos cantos da casa ansiando vontades de coisas talvez primárias, porém curiosas a mim. essas curiosidades só descobri aos poucos. depois de tanta coisa não vivida e por tantas vezes maltratada. tantos porres e ressacas, considere-me assim. atenta somente a minha dor, eu te quero, compreende? 2.2.08
sempre virá. a solidão não existe. nem o amor. nem o nojo. odeio quando te enganas assim, girando entre as panelas. a vida é agora, aprende. ainda outra vez tocarão teus seios, lamberão teus pêlos, provarão teus gostos. e outra mais, e outra vez ainda. até esqueceres faces, nomes, cheiros. serão tantos. o pó acumula todos os dias sobre as emoções. são inúteis os panos, vassouras, espanadores. tenho medo de continuar. e não suportaria parar, ondas de Iemanjá. vês como evito pedir ajuda? talvez mais que doze, muito mais, incontáveis todos esses doze, já faz tempo. às vezes sonho com eles. com todos. com quem não conheço. por um momento cede. não sejas assim implacável, incorruptível. não paires, esqueça as asas. fecha os olhos. chafurda, chapinha. afunda o rosto, solta a língua. lambe os orifícios. deixa a baba escorrer. geme, cadela no cio. como um macaco, acaricia teus próprios culhões. estende tua pata peluda para o Outro, delicadamente. cata os piolhos do Outro. deixa que catem os teus. esmaga entre os dentes, engole. fala-me do gosto.
31.1.08 o dia nasceu nublado, não vejo motivos para sair da cama. poupo cada esforço, me sinto fraca e desalmada - desde que você correu para o outro lado daquela porta - fico aqui pensando nas inutilidades dessa vida: café descafeinado, coca zero, chocolate light. como chegamos a esse ponto ? eu me perguntei mil vezes, mas não consegui ainda uma resposta completa. porque sendo sincera, eu só tento. minha cabeça lateja pelas noites mal dormidas que tenho gastado com o meu mais novo discurso de fracasso. então por favor, não comece mais uma vez. não me venha com aquela de que cada tristeza é recompensada com uma felicidade. você só me diz balelas e quando me poupa, solta mentiras das brabas. não me ache insuportavelmente pretensiosa dizendo essas coisas, é culpa do sangue barato que corre em minhas veias - tentar te amar dessa forma tão vadia e humana. 30.1.08
mas não do dela. 28.1.08
21.1.08
todo final me emociona: choro por cinco horas, durmo por três dias e bebo por tempo indeterminado. confies em mim, o que vivemos foi mais uma situação carnavalesca e se quiseres saber até onde o corpo aguenta, eu te falarei somente das ressacas. entendas, meu caro. eu sacrifiquei meus blues. na verdade, tenho a estranha sensação que por aqui já não resta muita coisa para se sacrificar - o cérebro já machuca o peito/ a mão já machuca a própria unha - e essas palavras, que no passado talvez me tivessem parecido exageradas ou convencionais, agora me parecem a mais pura exata verdade, pois precisamos manter o cabaço para além das emoções. anote. a grande verdade é: não se fazem mais happy ending como antigamente. é tudo um tanto patético, com amor&ironia.
"deverás não sofrem deverás não choram deverás não gritam" 9.1.08
escuta, é o amor morrendo novamente,
3.1.08
"Ainda não entendo o que me leva a escrever, tanto e tanto, sempre e sempre, acho que é a vontade de gritar e como não gosto de escândalos, escrevo. É silencioso, sabe, e não incomoda quem não quer ser incomodado. Acho que deveria cagar pra isso, todos grandes escritores gritavam, e não poupavam palavras, enchiam suas frases de merda, e aquilo fedia, como fedia, e mesmo assim, esfregavam na cara de todo mundo, sem vergonha alguma. Queria um pouco de Glauber no meu sangue. Um pouco de idealismo não faz mal a ninguém. Acreditar em utopias. Vai chegar um dia em que nem as crianças serão felizes, não vão ter mais no que acreditar. Digo, não terão nada real em que acreditar, porque a coca vai instaurar novos deuses, e vamos adorá-los, como vamos. Eu não questionarei, será o primeiro mandamento da nova lei do senhor."
http://semcores.wordpress.com 28.12.07
tudo vai continuar dando certo. 26.12.07 hoje acordei e meus olhos se abriram para o branco do teto. fiquei um bom tempo ali encarando o profundo branco, sem pensar absolutamente nada - porque nada absolutamente pensado eu seria capaz de suportar naquele momento. então quando menos percebi, eu tinha lágrimas caindo.
12.12.07
c. diz:
11.12.07 nem hoje, nem amanhã, nem nunca. passou, passou. eu não te quero mais. vou-me embora: a estrada é longa. |